Corria o ano de
1845. Após muitas negociações finalmente
silenciaram os canhões nas coxilhas gaúchas
com o fim da Revolução Farroupilha. O
seu troar e os gritos de guerra dos combatentes foi
substituído pelos cânticos das carretas
e pelo barulho das tropeadas.
O Rio Grande aguardava ansioso um novo despertar.
A guerra fratricida havia interrompido os planos
ambiciosos do Império Brasileiro. A imigração
européia estancara por 10 anos! Os sonhos da
imperatriz Dona Leopoldina de Habsburg haviam se mostrado
viáveis, e um novo império, nos moldes
europeus, começava a surgir na América.
A deficitária "Imperial Feitoria do Linho
e Cânhamo" dava lugar à "Colônia
de São Leopoldo" que, em pouco tempo,
superava a todas as expectativas. Os imigrantes correspondiam
ao que deles se esperava: as vilas e comunidades rurais
prosperavam, as colônias floresciam em toda
a parte e uma geração forte e decidida
começava a se impor nas terras gaúchas.
A Revolução Farroupilha havia interrompido
todo esse fluxo, mas a "Paz de Poncho Verde"
oferecia ocasião para reativá-lo. Para
tanto até as leis foram modificadas e as decisões
descentralizadas. As províncias do Império
foram autorizadas a implantar projetos de imigração
e colonização.
Novos empreendimentos foram surgindo, e entre eles
a "Colônia Provincial de Nova Petrópolis",
criada em 7 de setembro de 1858, no extremo norte
da "Colônia Alemã de São
Leopoldo".
As terras em questão, pertencentes à
encosta nordeste da serra gaúcha apresentavam-se
bastante acidentadas, com vales profundos em alguns
lugares e extensas várzeas em outros. As encostas
íngremes contornando os planaltos e os morros
de formas caprichosas lembravam a terra natal dos
imigrantes. A densa cobertura vegetal da região,
sua abundância em araucárias e outras
madeiras de lei fazia antever a fertilidade do solo.
Os rios Caí e Cadeia, servindo como vias de
escoamento da produção, poderiam viabilizar
economicamente a exploração e a produção
agrícola.
Mas a encosta da serra gaúcha também
tinha sua importância estratégica. Sua
ocupação poderia integrar definitivamente
as ricas "Vacarias de Cima da Serra" aos
mercados da região metropolitana. Das estâncias
serranas as grandes manadas seriam tropeadas através
da nova colônia, e os comboios de muares, com
suas bruacas carregadas com queijos serranos, maçãs
e outros produtos locais, poderiam descer tranquilamente
as encostas da Serra e encontrar mercados certos no
sul.
A "Colônia Provincial de Nova Petrópolis"
foi cuidadosamente planejada. Suas terras foram divididas
em lotes, as "colônias", com aproximadamente
50 hectares, distribuídas ao longo de "Linhas"
e "Picadas". Estas apresentavam um traçado
especial de modo a favorecer a todos os lotes na qualidade
das terras, aguadas, etc. De 10 em 10 quilômetros
criaram-se pequenos núcleos coloniais cuja
função era dar apoio ao "hinterland".
No centro implantou-se o "Stadtplatz", a
sede colonial, hoje cidade de Nova Petrópolis.
As indagações feitas quanto às
origens do nome da Colônia levam à concluSão
de que se tratava de uma homenagem ao jovem imperador
D. Pedro II, cuja popularidade era muito grande naquela
época. "Petrópolis = Cidade de
Pedro" e "Nova Petrópolis" foi
uma analogia à cidade imperial de "Petrópolis",
no Rio de Janeiro, cuja topografia é semelhante
à da nova colônia.
A tradição local refere-se a uma hipotética
viagem de D. Pedro II à região e a seu
deslumbramento pelas belezas das paisagens locais.
Os imigrantes que aqui chegaram, em sua imensa maioria,
eram alemães, oriundos da Renânia (Hunsrück),
da Pomerânia, Saxônia, Baviera, Prússia
e Boêmia. Da Polônia, então pertencente
à Rússia, veio um contingente; também
da França e Holanda chegaram alguns imigrantes
isolados.
Após 1875, italianos procedentes do Vêneto
atravessaram o Rio Caí e fundaram a comunidade
de Pedancino. Foi também tentado o estabelecimento
de um grupo de irlandeses, procedentes dos Estados
Unidos, de onde fugiram devido à Guerra da
SecesSão. Foram localizados na "Linha
Marcondes", mas logo se dispersaram.
Somando-se aos estrangeiros, numerosas famílias
"teuto-brasileiras" originárias das
velhas colônias chegaram em busca de novas terras.
Sua experiência foi de grande valia para a adaptação
dos recém-chegados.
Os caminhos ou rotas seguidas pelos imigrantes para
chegarem à nova colônia foram diversas:
grande parte dos pioneiros navegavam até o
"Porto dos Guimarães", hoje São
Sebastião do Caí, de lá seguiam
até a "Colônia Feliz", de onde
subiam o morro até a Linha Nova (Neuschneis),
ingressando na Linha Olinda. Esta rota tinha uma variante:
de São Sebastião do Caí seguia-se
até São José do Hortêncio
(Portugieserschneis) e de lá até a Linha
Nova.
Grande número de famílias também
navegava até São Leopoldo e de lá
seguia até Ivoti (Berghahnerschneis), continuando
de lá até São José do
Hortêncio, seguindo via Linha Nova para Nova
Petrópolis.
De Ivoti alguns grupos, antes mesmo de 1858, ocuparam
o vale do Rio Cadeia, chegando até Picada Holanda
(Holland) e Picada Café (Kaffeeschneis). Essa
ocupação foi somente legalizada posteriormente,
pois havia sido iniciada em 1846.
Partindo de "Dois Irmãos" (Baumschneis)
alguns grupos seguiram rumo ao norte, em busca das
"Montanhas Azuis" (Blaue-Berge des Nordens)
que exerciam grande fascínio sobre os imigrantes.
Chegaram ao "Herval" (Teewald) e contornando
os morros acabaram chegando ao Jammertal e Joaneta,
subindo novamente as encostas rumo ao "Pinhal
Alto" (Tannenwald).
Um grupo de pomeranos e mais algumas famílias
procedentes de outras regiões ocuparam diretamente
o vale do Rio Caí, estabelecendo-se em ambos
os lados, até a foz dos Arroios Piaí
e Pirajá, que foram ultrapassados. Ali, após
1875, ingressaram os italianos. As famílias
boêmias, vindas após 1870, seguiram as
pegadas dos seus antecessores e foram ocupando as
terras que iam sendo abertas em Linha Imperial, Nove
Colônias, Linha Brasil, Linha Araripe, etc.
A Linha Marcondes constituiu-se no extremo nordeste
da Colônia, e uma ampliação mais
para cima da serra, requereria um novo projeto.
Durante muitos anos levas e levas de imigrantes foram
chegando à "Colônia Provincial de
Nova Petrópolis", carregados de sonhos
e ilusões. O isolamento dos primeiros tempos
desviou muitas famílias para outras regiões,
e as grandes dificuldades abateram o ânimo de
muita gente que abandonou suas terras. A maioria,
porém, ficou firme e venceu a todos os desafios,
construindo neste recanto da Serra Gaúcha uma
nova Pátria para si e para os seus filhos.