OS BANCOS
não têm do que reclamar. Lucros bilionários
recordes têm sido registrados todo ano,
e em 2007 não será diferente. A
rentabilidade deve superar a do setor petrolífero,
que tradicionalmente lidera o ranking. Nada contra
altos lucros, desde que sejam produzidos por atividades
justificáveis e socialmente responsáveis.
De janeiro a setembro de 2007, os cinco maiores
bancos (Bradesco, Itaú, ABN Real, Santander
e Unibanco) anunciaram lucros líquidos
de R$ 18,5 bilhões -alta de 90% ante o
mesmo período de 2006. O aumento do volume
de crédito e o maior número de pessoas
utilizando os serviços bancários
contribuíram para inflar os ganhos do setor,
o que é bom. Mas um item que tem sido determinante
para os resultados são as tarifas cobradas,
que são abusivas e precisam ser coibidas.
Se o setor bancário fosse plenamente competitivo,
elas não teriam mostrado a evolução
vista nos últimos anos.
Entre 1994 e 2006, a receita dos bancos com a
prestação de serviços subiu
sete vezes, de R$ 6,4 bilhões para R$ 52,8
bilhões. A participação das
tarifas na receita total no período saltou
de 6,5% para 17,7% e deve superar 20% em 2007.
Um estudo do Dieese, publicado em 2006, mostra
a evolução do peso das tarifas.
Em 1994, essa receita equivalia a 26% das despesas
com pessoal nos 50 maiores bancos. Em 2005, ela
representou 102,3%.
O aumento do peso das tarifas na receita do setor
bancário não aconteceu por acaso.
Em 1994, o BC deu total liberdade para os bancos
cobrarem pelos serviços que prestavam como
forma de compensá-los pela perda do "floating",
um ganho expressivo que eles obtinham na época
da inflação galopante e que o Plano
Real fez desaparecer.
Hoje, os bancos ganham mais com a cobrança
de tarifas do que com o "float" inflacionário
dos anos 80 e 90. O tema ganhou destaque quando
o Ministério Público abriu inquérito
contra o BC e o CMN argumentando que os órgãos,
que deveriam coibir os abusos praticados pelos
bancos, permitiram que o setor explorasse seus
clientes. O governo federal, pressionado, resolveu
intervir para regulamentar o preço dos
serviços cobrados pelas instituições.
As despesas que os bancos lançam nas contas
dos clientes muitas vezes passam sem serem notadas
pois muitos valores são pequenos. Mas,
se forem somados no fim do mês ou do ano,
compondo um extrato unificado, o consumidor perceberá
que cada vez mais esses serviços abocanham
uma fatia considerável de seu orçamento.
Em realidade, as tarifas funcionam como uma CPMF,
abocanhando parcelas crescentes dos recursos financeiros
da população que movimenta contas
bancárias.
A questão das tarifas bancárias
no Brasil envolve tanto sua proliferação
como os valores cobrados e os reajustes aplicados.
Segundo a consultoria Vida Econômica, em
13 bancos pesquisados foram apurados 58 serviços
tarifados para as empresas e 41 para as pessoas
físicas, sendo que esses clientes chegaram
a arcar com aumentos tarifários de 4.661%
e 49.900%, respectivamente, no período
entre 2001 e 2006.
A redução da quantidade de tarifas
para 20 e seu congelamento por seis meses, a partir
de abril de 2008, não impedem que o setor
bancário continue praticando abusos. As
medidas não enfrentam o problema da promiscuidade
que reina entre os bancos e o BC. É preciso
rever a legislação antitruste e
acabar com a imunidade dos bancos às análises
do Cade, da SDE e da Seae. Seria importante para
estimular a concorrência e conter a escalada
tarifária. |